Formigas- Insetos eusociais
A vida organizada em sociedade surgiu no Cretáceo, há 140 milhões de anos. As formigas, assim como os cupins, algumas abelhas e vespas, são insetos que apresentam hábitos eusociais.
Isso significa que duas ou mais gerações se sobrepõem na sociedade,
adultos cuidam de juvenis e são divididos em castas reprodutivas e não
reprodutivas (as operárias).
Vantagens em estudar as formigas saúvas (Gênero Atta)
As
formigas são muito usadas em estudos sobre ecologia, comportamento e
sociobiologia. As sociedades de saúvas são bons exemplos para o estudo
de relações ecológicas e ilustração do ciclo de energia e matéria
através dos níveis tróficos. Elas podem ser facilmente mantidas em
laboratório e isso, atrelado à sua abundância em ambiente natural,
principalmente no ecossistema de cerrado, facilitam a observação de
eventos como a divisão de tarefas, a revoada, a fundação de uma nova
colônia, o cuidado dos adultos com as formas jovens, o cultivo do fungo,
cooperação entre indivíduos, procura e corte de material vegetal,
defesa e limpeza da colônia.
Organização da sociedade, cada uma desempenha uma tarefa

As
formigas adultas não crescem, elas nascem com seu tamanho definitivo. É
o tamanho do indivíduo que irá definir sua função na sociedade.
As tarefas desempenhadas podem ser divididas basicamente em quatro principais:
1- o cuidado do fungo e das formas imaturas exercida pelas jardineiras ou enfermeiras, que são as menores formigas da colônia;
2-
generalistas, responsáveis por vários tipos de atividades dentro da
colônia como a separação do lixo, preparação de vegetais a serem
incorporados às espojas de fungo e a reconstrução das esponjas;
3- forrageadoras, responsáveis pela exploração do ambiente externo e a busca por material vegetal;
4- defensoras ou "soldados", responsáveis por repelir ações adversas contra o ninho, principalmente de outras formigas.
Outros estudos demonstram que em Atta, existe uma divisão de tarefas em sub-tarefas, de acordo com uma gradual variação do tamanho do corpo.
Por exemplo, a implantação da folha no fungo envolve 4 estágios: sua
chegada à câmara de fungo, dois estágios de corte de pedaços das folhas
em partes cada vez menores e a inserção na esponja de fungo.
A
questão da divisão de tarefas já foi observada em vários níveis da
organização social do gênero, o que indica a alta complexidade deste
fenômeno e sua diversidade, podendo variar entre espécies, na mesma
espécie e numa mesma colônia.
Para
fins didáticos, o vídeo “As Saúvas – Uma sociedade de formigas”
apresenta as castas de acordo com o tamanho do corpo dos indivíduos e se
baseia em mais de uma interpretação sobre a divisão de tarefas.
os cultivos das saúvas

As
saúvas são dos poucos animais que cultivam seu próprio alimento. Por
isso, comparadas ao homem, são chamadas de “agricultoras”. Ao contrário
do que se imagina, elas não se alimentam das folhas: usam-nas para
cultivar um jardim de fungo.
O
fungo fornece alimento para as formigas e elas oferecem cuidado. No
início do sauveiro, a rainha alimenta a primeira partícula de fungo com
gotas fecais (ver “Ciclo de vida”). Com o surgimento da casta das
cortadeiras, o fungo passa a ser cultivado com pequenos pedaços de
vegetais que são implantados por operárias de cerca de 2mm, que compõe a
casta das jardineiras. O fungo cresce e adquire um formato de esponja.
As formigas evitam a formação do corpo de frutificação (conhecido por
“chapéu”), pois não é comestível e caso se forme, pode dominar o
restante do fungo.
Os dois organismos vivem numa relação de mutualismo, indispensável para a sobrevivência das duas espécies.
ciclo de vida (voo nupsial das saúvas)

A colônia de formigas é uma sociedade formada exclusivamente por fêmeas, exceto no período pré-nupcial, quando nascem os machos.
A
reprodução das saúvas é um fenômeno altamente sincronizado. Quase todos
os cruzamentos ocorrem num intervalo de cerca de uma semana, para todo o
Estado de São Paulo (podendo ocorrer algumas variações dependendo do
clima de cada região).
Em
meados de outubro, num dia quente e ensolarado com fortes chuvas de
véspera, centenas de içás e bitus (fêmeas e machos férteis e virgens)
deixam os ninhos em que nasceram para encontrarem parceiros sexuais.
Ambos são alados e ao saírem pelos olheiros, procuram um local alto,
como um galho, e começam a aquecer a musculatura das asas para em
seguida decolarem. Fazem então o vôo nupcial.
É no ar que ocorre a cópula e cada fêmea pode copular com até 5 machos. Ao
caírem no chão, os machos se unem numa sombra e morrem após algumas
horas, enquanto as fêmeas, já fecundadas, procuram um local adequado no
solo para iniciar a escavação da sua própria colônia. Ela livra-se das
asas e em torno de 10 horas faz um canal inicial de aproximadamente 15
centímetros de profundidade que termina em uma pequena câmara.
A
rainha inicia o cultivo de um pequeno pedaço de fungo de cerca de 1
milímetro, que trouxe do formigueiro de origem, alimentando-o com gotas
fecais. Coloca os primeiros ovos que se transformam em larvas, pupas e
então adultos. As primeiras operárias aparecem aproximadamente 60 dias
após o vôo nupcial.
Desenvolvimento Holometábulo – Metamorfose completa


O
desenvolvimento das formigas é holometábulo, caracterizado por
metamorfose completa. Os ovos se desenvolvem em larvas, que não
apresentam nenhuma semelhança com as formas adultas. Não possuem olhos
nem apêndices apresentando formato de “grão de arroz”. São alimentadas
pela casta das enfermeiras. Diferentemente das larvas de outros insetos
holometábulos, não se movem.
Após
uma única muda, surge o estágio de pupa. Neste estágio não há movimento
ou alimentação e é quando as estruturas do corpo são reorganizadas e os
órgãos sexuais são formados e então é atingido o estágio de adulto. À
medida que a pupa se aproxima do estágio adulto, sua coloração torna-se
mais amarelada. A formiga que acaba de se tornar adulta é também
amarelada e com o passar do tempo, escurece.
Saúvas na História do Brasil

As formigas saúvas ou cortadeiras, do gênero Atta,
são conhecidas principalmente pelos danos que causam à agricultura. Os
formigueiros, contendo milhões de formigas, podem devastar plantações e
causar prejuízos à construções civis. As saúvas são responsáveis por
grande parte do consumo de folhas nas florestas neo-tropicais e savanas.
Estudos recentes sugerem que aproximadamente um terço da biomassa
animal da floresta amazônica terra firme
é composta por formigas e cupins e que cada hectare de solo contém por
volta de 8 milhões de formigas e 1 milhão de cupins. Ao lado de abelhas e
moscas, esses insetos compõem mais de 75% de toda a biomassa de insetos
existentes no mundo.
Aparecem
na literatura desde o século XVI em relatos de expedições pelo Brasil
no começo do período de colonização. Os jesuítas e viajantes já
reportavam sobre as saúvas: “... das formigas porém, só aparecem dignas
de menção as que estragam as árvores; as chamadas içás têm cor arruivada
, esmagadas cheiram a limão, abrem grandes buracos no chão” das Cartas
do padre jesuíta José Anchieta, 1560.
Marechal
Rondon, em 1788, escreveu: “As formigas vermelhas chamadas saúvas na
língua do país são insetos formidáveis e só elas comem mais pastagens
que os gados. O lavrador vê com seus olhos que em uma noite tosquiam
todo um arvoredo, deixando-o incapaz de produzir frutos um par de anos”.
Importância ecológica
Apesar
dos malefícios à economia e à agricultura brasileira, as formigas
cortadeiras apresentam grande importância ecológica. O grande acúmulo de
nutrientes e mudanças nas propriedades do solo próximo às colônias,
parece beneficiar as plantas que crescem perto delas. As colônias de Atta cortam
grandes quantidades de folhas ricas em nutrientes de plantas que
crescem a centenas de metros do sauveiro. Este material é concentrado no
formigueiro quando implantado no fungo que cultivam em câmaras
subterrâneas.
As
saúvas têm um importante papel na ciclagem de nutrientes e no seu
acúmulo no solo favorecendo o crescimento de plantas nas proximidades do
sauveiro.
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